"Como é bom estar viva"
Estava num bar com amigos e colegas, momento de resenha, falávamos de várias coisas da vida e do que nos unia especialmente: o trabalho. Um deles me contou que a frase do título foi dita por uma pessoa pública importante. Ela certa vez estava em uma celebração com algumas pessoas tão importantes quanto ela, com muito mais gente querendo ser tão importante quanto e se amontoando para filar a companhia destes/as importantes.
Quando recebe a ligação de amigo que estava noutra festa, noutro rolê, com os mortais. - "Vem pra cá, estamos aqui". O código foi suficiente. Depois de um tempo, algumas dúzias de abraços, sorrisos, poses de fotos e selfs solicitadas por aqueles menos importantes, promessas e pedidos de apoio chega no bar. O abraço nesse nosso amigo segundo ele foi o primeiro desabafo, saiu de dentro com tanto vigor, sem o menor receio de ser reconhecido: Como é bom estar viva! Foi o resgate da festa horripilante, nauseabunda, um ambiente inóspito e enclausurado, para ser acolhida num lugar mais sincero, afetivo.
Eu estou usando o mesmo mote porque a escolha do deslocamento radical que fiz me fez perceber isso também. Não é romantismo ou idealismo, eu precisava disso, me convenci de que precisava e a primeira semana mostrou que isso era a mais pura verdade.
Uma ruptura na relação nunca é boa. É o fechamento de um ciclo e as vezes as motivações, desejos, justificativas até dos porquês não fica bem estabelecida de cara, vai precisando decantar, sedimentar pra ter alguma adesão à realidade. É também, uma abertura pra coisa nova, que pode ser tão arrebatadora e por mais que possa parecer só mais uma coisa, pra esse alguém que acabou de ter a ruptura soa como se fosse a descoberta de um mundo todo novo. Mas isso só isso vale outras teclas digitadas.
Durou uma hora e 15 minutos o primeiro reencontro, com o orientador. Primeiro vieram as conversas quebra-gelo, os assuntos variados, as digressões até tentar onde se perderam nesses 4 anos sem conversa e sem trabalho mais próximo. Quando assunto se desenvolveu foram novos pactos realizados, uma rota traçada, um destino a seguir.
Olha, eu já meio que sabia o que mais ou menos ia sair, mas receber aquela informação presencialmente, olho-no-olho com direito a sinceros escárnios com a condição financeira: "porra, deixa de ser babaca, tá perdendo dinheiro todo mês". Só isso, fez mover uma força quase paternal, pueril da minha parte talvez, falta de presença de quem oriente, de uma paternidade ainda mais talvez. Estava eu esperando a ordem de um macho velho, branco pra mudar a minha própria vida? pra me dizer o que deveria já ter feito e fazer imediatamente? Era, talvez fosse isso mesmo, não vou negar. Fato é que depois dessa conversa, que inaugura as próximas e que vai se repetir na próxima semana pelo menos mais duas vezes, passei elo jardim em direção à biblioteca. Parei, olhei para as árvores, senti a brisa soprar, fitei o horizonte por cima da Igreja de São Lázaro, olhei o mar, senti a brisa de novo, escutei o silêncio do feriado. Depois cheguei ao banheiro da biblioteca: chorei, desabei, não consegui segurar. Ainda meio sem saber o porquê, e bom que escrevo logo em seguida isso pro Emmanuel do futuro (espero, seu cretino que com doutorado), sinto que foi mais de felicidade. Lembrando o que me fez em 2017 vir pra cá, escolhi, estudei, lutei, madruguei, construí um objeto inovador e interessante para entrar num programa "sem conhecer ninguém" sem ser importante no campo. E vim, vivi esses bons anos aqui. Foi saudade, nostalgia e lembrança. E isso bate forte viu. E passar aqui de novo, com objetivo de concluir, com desejo de finalizar e mais com disposição, interesse e resolução de fazer isso.
É por mim, mas não é só por mim, tem minha filha, minha mãe que dependem disso diretamente. Mas olha, nesse momento tem de ser egoísta mesmo, olhar primeiro pra si e dizer: É porque eu quero e eu vou lá fazer, porque vai ser bom, satisfatório, é a minha vida porra, eu só tô aqui mais uns anos.
E Como é bom estar viva! é disso. É o mesmo choro de raiva porque deixou-se ficar, e precisou alguma coisa se mover para perceber que você tava numa situação ruim, mas talvez você não pudesse sair antes. É de ansiedade, agonia, por saber o que vem pela frente, por imaginar que por conta disso dessas escolhas mesmo cheio de gente ao redor tudo passa a depender de você mesmo, e encarar a realidade sem muletas dói. Será que eu vou conseguir? Será que tudo que construí até aqui vai ser suficiente pra me fazer conseguir? Vou ter que dar mais ainda? É também choro de alegria, de consciência da pulsão original, da agência de você saber querer ter sucesso na missão, tem mecanismos pra isso, ainda mais depois de escutar de alguém que te orienta que você pode sim. Viver a vida é ter essa noção: com gente de bem do seu lado (sim, vai ficar muita gente pelo caminho), com equilíbrio mental em dia e sobretudo, com a porra do mapa de navegação apontando pra onde você quer ir, pode ser que dê certo.
Enxuga as lágrimas, lava o rosto, estica a coluna, respira fundo e bora. Se for o caso vai ser essa rotina todo dia, não tempo problema, no fim, quando olhar vai ver que não foi fim. É só o começo de algo novo. E deixar-se encantar, se apaixonar pelo novo é o motivo que trouxe a gente até aqui, a ficar vivo.
