Praticamente inofensiva. 1
Estou aqui por dois motivos básicos. O primeiro remete à necessidade
de escrever e dar vazão ao sentimento por meio de letras. Esta coisa que impede
que nos expressemos melhor. Isso já nos trai no momento da análise quando a
psicanalista começa: “pode falar, fique à vontade para começar por onde quiser”.
Daí em diante é só caos, desordem.
O segundo remete aos últimos acontecimentos na minha vida
pessoal. Não posso passar por eles sem um belo esforço reflexivo de entender
quais demandas não consegui lidar desde o último post. Faz tempo, muito tempo.
E posso relacionar tudo com o primeiro motivo: deixei de escrever e me tornei
pior. Ou não. Sem tempo de conseguir desopilar. Se faltou isto, a rotina
dominou. Sentar ao fim de uma densa leitura científica e conseguir relaxar em
uma boa literatura. Eu não consigo, sei que há gente que consegue. Não consigo
fazer várias coisas. Então vou começar.
Não me lembro ter escrito algo de muito amoroso para minha
ex-mulher. Ela sabe e com toda razão protestara sobre. Na verdade, a coisa mais
afetuosa que escrevi para ela foi alguns dias depois que ela saiu pela porta do
apartamento com poucas roupas e a convicção de que não voltaria. Uma carta de 6
(relativas longas) páginas tentando fazer um estatuto do balanço da arte do nosso
relacionamento utilizando verbos no futuro do pretérito, aquela conjugação do
que deveria ter sido, mas não foi. Que bom que pude expressar a mediocridade
com tanta formalidade. A carta foi um apanágio. Não era para ter sido aquilo,
mas foi. No fim deixei em aberto a possibilidade de um retorno, que no fundo
sabia que nunca ia acontecer.
O fim, a
estória toda é momento talvez para...outro momento.
Agora, serei sincrônico pois preciso cumprir uma promessa
jornalística à uma editoria. Não para um jornal, fiquemos com a informação
original.
Depois do término trágico (é a única coisa que posso dizer
sobre isso agora), pois todos eles assim os são, decidi que o melhor seria me
afastar um tanto desses convívios sociais com mulheres até ter a vida
financeira assegurada. Ledo engano, não foquei num concurso para efetivo nem no
projeto de doutoramento. Conheci várias pessoas legais, moças ótimas. Tornei-me
usuário mais ou menos regular de aplicativos de
encontro/paquera/pegação/putaria. Para observar e adotar. Gente diversa com
propostas diversas e visões de mundo tão diversas. Voltei a tentar afetos
antigos dos quais havia quase certeza que seria muito bom revisitar, não foram.
Uma. A primeira foi bem interessante. Nunca tinha feito aquilo na vida:
conversar com alguém e depois de algumas horas estar na cama com a pessoa.
Genial.
Depois de algumas incursões as coisas ficam chatas. Maçantes
mesmo, cria-se quase um texto padrão de apresentação com os temas: afinidades,
interesses, viagens, propostas, profissão. É impossível sair disto ao menos nos
primeiros dias. A não ser que se encontre uma pessoa disposta a falar isso tudo
no durante o processo.
Aquela primeira foi quase assim por motivo que lembro bem; uma
suposta rigidez como eu a tratava; não caminhamos juntos. Era uma boa menina,
mãe solteira guerreira, gente fina de uma área de atuação que sempre achei
interessante do ponto de vista do olhar, a moda, mas não agregou. Tive um
solapo breve. Passou. Passaram, passarinhas.
Eis que de repente, não mais que isto, surge mais uma destas
boas moças nos aplicativos. Não a segunda. Nerd/geek, literata, bonita. Dou um
coraçãozinho, anoto os amigos em comum. Observo as fotos, o instagram. Nossa! Que
pessoa mais cult e charmosa. Fui nos amigos em comum do facebook, graças ao
interligar da base de dados. Decidi escrever para esta moça mesmo sem esperar
pelo match do tinder. Sábia decisão impetuosa. A moça, acho que por gentileza
ou surpresa leu meu argumento e deve ter ficado, penso eu, curiosa e assustada
com um estranho, não tão bonito, sem muita lábia, sem muito charme nem glamour.
O que eu tinha de fato? Sei lá, coragem? vontade? Qualquer dia pergunto.
Importante dizer é que conversamos bem, ao ponto de eu não
ligar para as outras conversas. Aos poucos a seleção natural foi estabelecendo.
Inteligente, sedutora, sarcástica, libidinosa, encrenqueira, teimosa. Apossou-se
da minha atenção. Quando saímos e eu fitei aqueles olhos esbugalhados (míopes),
pretos (baixos/oblíquos) gostei do que vi lá dentro. Optamos por tomar um
drink, nos conhecer e ver o que daria. E deu. E deu bem legal. Não só o sexo,
mas a sinergia que rolou junto. O afeto de querer bem, estava presente desde
já. Daí me perguntei o que seria dessa coisa.
Parei de perguntar, acho mais interessante só sentir e
viver. Somos, por enquanto protagonistas de uma coisa bem interessante, dessas
que tomam conta do dia inteiro em pensamento. Do momento de dar bom dia até o
cafona boa noite. De dar carona, de deixar em casa. É gentileza, mas é afeto
também. Olhar dentro dos olhos dela enquanto fazemos sexo é como mergulhar num
buraco negro em que vejo novas estrelas, novos universos se formando, ao mesmo
tempo que outros destroem-se. É metonímia, não metáfora. Sei que lá ela tem
essa capacidade de destruir e de recriar. Eu, precisado de busca interior, de
refletir a partir de mim, percebo em refração à pessoa que tira meu sono e me
embala para dormir.
De tanto não procurar, de não buscar, acho que
não encontrei, mas fui encontrado. Eu precisava disto. Creio ter usado muito o
verbo, sim nosso amigo do em “começo que se fez”, universo (que ela teima em
não chamar de outra coisa) ou no texto, aonde começamos, vai ter de mudar. Acho
e só acho, por enquanto para não alimentar nenhuma expectativa que venha por
ser frustrada, que vai ser deixado de ser conjugado no “eu” e vai passar para o
“nós”. Será? Sei não, vou consultar os búzios...
