Wednesday, November 02, 2016

Praticamente inofensiva. 1


Estou aqui por dois motivos básicos. O primeiro remete à necessidade de escrever e dar vazão ao sentimento por meio de letras. Esta coisa que impede que nos expressemos melhor. Isso já nos trai no momento da análise quando a psicanalista começa: “pode falar, fique à vontade para começar por onde quiser”. Daí em diante é só caos, desordem.

O segundo remete aos últimos acontecimentos na minha vida pessoal. Não posso passar por eles sem um belo esforço reflexivo de entender quais demandas não consegui lidar desde o último post. Faz tempo, muito tempo. E posso relacionar tudo com o primeiro motivo: deixei de escrever e me tornei pior. Ou não. Sem tempo de conseguir desopilar. Se faltou isto, a rotina dominou. Sentar ao fim de uma densa leitura científica e conseguir relaxar em uma boa literatura. Eu não consigo, sei que há gente que consegue. Não consigo fazer várias coisas. Então vou começar.

Não me lembro ter escrito algo de muito amoroso para minha ex-mulher. Ela sabe e com toda razão protestara sobre. Na verdade, a coisa mais afetuosa que escrevi para ela foi alguns dias depois que ela saiu pela porta do apartamento com poucas roupas e a convicção de que não voltaria. Uma carta de 6 (relativas longas) páginas tentando fazer um estatuto do balanço da arte do nosso relacionamento utilizando verbos no futuro do pretérito, aquela conjugação do que deveria ter sido, mas não foi. Que bom que pude expressar a mediocridade com tanta formalidade. A carta foi um apanágio. Não era para ter sido aquilo, mas foi. No fim deixei em aberto a possibilidade de um retorno, que no fundo sabia que nunca ia acontecer.

O fim, a estória toda é momento talvez para...outro momento.
Agora, serei sincrônico pois preciso cumprir uma promessa jornalística à uma editoria. Não para um jornal, fiquemos com a informação original.
Depois do término trágico (é a única coisa que posso dizer sobre isso agora), pois todos eles assim os são, decidi que o melhor seria me afastar um tanto desses convívios sociais com mulheres até ter a vida financeira assegurada. Ledo engano, não foquei num concurso para efetivo nem no projeto de doutoramento. Conheci várias pessoas legais, moças ótimas. Tornei-me usuário mais ou menos regular de aplicativos de encontro/paquera/pegação/putaria. Para observar e adotar. Gente diversa com propostas diversas e visões de mundo tão diversas. Voltei a tentar afetos antigos dos quais havia quase certeza que seria muito bom revisitar, não foram. Uma. A primeira foi bem interessante. Nunca tinha feito aquilo na vida: conversar com alguém e depois de algumas horas estar na cama com a pessoa. Genial.

Depois de algumas incursões as coisas ficam chatas. Maçantes mesmo, cria-se quase um texto padrão de apresentação com os temas: afinidades, interesses, viagens, propostas, profissão. É impossível sair disto ao menos nos primeiros dias. A não ser que se encontre uma pessoa disposta a falar isso tudo no durante o processo.

Aquela primeira foi quase assim por motivo que lembro bem; uma suposta rigidez como eu a tratava; não caminhamos juntos. Era uma boa menina, mãe solteira guerreira, gente fina de uma área de atuação que sempre achei interessante do ponto de vista do olhar, a moda, mas não agregou. Tive um solapo breve. Passou. Passaram, passarinhas.

Eis que de repente, não mais que isto, surge mais uma destas boas moças nos aplicativos. Não a segunda. Nerd/geek, literata, bonita. Dou um coraçãozinho, anoto os amigos em comum. Observo as fotos, o instagram. Nossa! Que pessoa mais cult e charmosa. Fui nos amigos em comum do facebook, graças ao interligar da base de dados. Decidi escrever para esta moça mesmo sem esperar pelo match do tinder. Sábia decisão impetuosa. A moça, acho que por gentileza ou surpresa leu meu argumento e deve ter ficado, penso eu, curiosa e assustada com um estranho, não tão bonito, sem muita lábia, sem muito charme nem glamour. O que eu tinha de fato? Sei lá, coragem? vontade? Qualquer dia pergunto.

Importante dizer é que conversamos bem, ao ponto de eu não ligar para as outras conversas. Aos poucos a seleção natural foi estabelecendo. Inteligente, sedutora, sarcástica, libidinosa, encrenqueira, teimosa. Apossou-se da minha atenção. Quando saímos e eu fitei aqueles olhos esbugalhados (míopes), pretos (baixos/oblíquos) gostei do que vi lá dentro. Optamos por tomar um drink, nos conhecer e ver o que daria. E deu. E deu bem legal. Não só o sexo, mas a sinergia que rolou junto. O afeto de querer bem, estava presente desde já. Daí me perguntei o que seria dessa coisa.

Parei de perguntar, acho mais interessante só sentir e viver. Somos, por enquanto protagonistas de uma coisa bem interessante, dessas que tomam conta do dia inteiro em pensamento. Do momento de dar bom dia até o cafona boa noite. De dar carona, de deixar em casa. É gentileza, mas é afeto também. Olhar dentro dos olhos dela enquanto fazemos sexo é como mergulhar num buraco negro em que vejo novas estrelas, novos universos se formando, ao mesmo tempo que outros destroem-se. É metonímia, não metáfora. Sei que lá ela tem essa capacidade de destruir e de recriar. Eu, precisado de busca interior, de refletir a partir de mim, percebo em refração à pessoa que tira meu sono e me embala para dormir.

De tanto não procurar, de não buscar, acho que não encontrei, mas fui encontrado. Eu precisava disto. Creio ter usado muito o verbo, sim nosso amigo do em “começo que se fez”, universo (que ela teima em não chamar de outra coisa) ou no texto, aonde começamos, vai ter de mudar. Acho e só acho, por enquanto para não alimentar nenhuma expectativa que venha por ser frustrada, que vai ser deixado de ser conjugado no “eu” e vai passar para o “nós”. Será? Sei não, vou consultar os búzios...