Wednesday, March 27, 2019

Que fazer? ou biografia da tragédia perene.

Não lembro de fins “de boas”. Julga-se tão racional e preza por explicações lógicas, que às vezes imagina que isso só sirva para esconder a emotividade reprimida. Olhar em retrospecto para os acontecimentos faz crer maluco, teimoso impertinente, ou ainda, um devoto de perigos perenes, que surgem como tempestade a minha frente, e, corre para o afogamento.

Todos os eventos, pessoas envolvidas e orixás/entidades são invenções, até que se prove o contrário mnemônico,  a concidência com a realidade é isso mesmo, mera coincidência. 

O primeiro relacionamento, ainda cedo adolescência, foi com uma menina mais velha, três anos fazem muita diferença. Com 13 estava decidido na aventura mais profunda, ir a praça do bairro vizinho de bicicleta, desafiando as fronteiras e querelas territoriais, tudo para tomar soverte e pegar na mão, ou, no máximo, uma vez por mês no cinema. Ela, aos 16, estava interessada em outras coisas, desde maquiagem, ao intercambio no exterior ao fim do ensino médio. O potencial máximo estava alí: temáticas de Cavaleiros do Zodíaco, o incrível campeonato brasileiro de 1999 vencido pelo Corinthians e o próximo lançamento do Cannibal Corpse. Motivo lógico: mulher x menino do bucho amarelo.

O segundo foi de fato relacionamento, pois era um acordo entre seres com mesmo objetivo. Foi aquele de escola, do espírito da época: eram vários meninos e meninas aproveitando a escola no contra turno, jogando basquete, vandalizando salas ociosas, pilhando os recém inaugurados shoppings, caotizando tudo pela frente uns com os outros. Ela ficou com vosso melhor amigo. O cara que tinha, literalmente, levado nos braços quando arrebentou o joelho. Erguido com a ajuda dele num lance de escada. Nos primeiros dias, pós joelho arrebentado, ela ia na casa deixar a tarefa da escola. Mas depois deixou de ir. E quando voltou às aulas, uns 15 dias depois, tudo já estava diferente. Sofreu pra caramba pela primeira vez, de verdade, mudou de escola. Motivo lógico: ilusão monogâmica e chifre de brother.

Noutro, pintada a mulher ideal, finalmente parece que tinha conseguido-a. Poucos meses depois, num carnaval, igual a este, numa viagem a este sítio, ela teve a mente contaminada pelo ardiloso irmão e um amigo dele, cujo objetivo era ficar com ela. Ela expurgou alí mesmo, por telefone, numa barreira de terra, único local aonde tinha sinal de telefone. Ao chegar para “conversar”, a única coisa que teve foram os livros de RPG de volta; ao menos. Motivo: pilantragem de irmão.

Os outros micro-relacionamentos que se seguiram parece que foram tomados pela altivez da idade adulta batendo à porta (ao menos a biológica).  Parece que os hormônios tinham sido amestrados, finalmente, pelas sinapses da racionalidade, com as rédeas nas mãos passou a correr menos aperto neural. Quer dizer, menos em intensidade. Entendeu que na verdade a gente não gosta nem deseja as pessoas pelo corpo ou pela aventura somente, mas pela afinidade, pela aproximação de gostos, lugares e impressões de mundo similar. Isso nem de longe significa estabilidade. A música, o rock, o metal, eram e ainda são parte fundante da sociabilidade. Melhores amigos e, obviamente, mulheres tinha de ser vinculados minimamente a este meio. Eis que pegava um busão, dois fins de linha. Saído do estágio, que pagava à época 200 reais (meio salário). Eram duas horas no horário de pico, duas vezes por semana, para escutar metal, beber coca-cola, cerveja, transar e desbravar o Zona Oeste da Cidade. Até que um dia, num dos momentos de pessoa autoritária, a sandália dela quebrou. Na cabeça bastava ir na Americanas e comprar uma chinela de dedo (a havaiannas, neste tempo não custava um Espedito Seleiro, ainda). Mas não, a general decidiu que queria um “scarpin”, coisa que sequer tinha ouvido falar na vida, custava ¼ do salário mensal. Não foi um pedido, foi imposição. A esta, outras seguiram: onde andar, com quer ir, o que beber (eu odeio Antártica) e o pior de tudo, o fim da picada, quais bandas gostar. Motivo lógico: Autoritarismo não combina com metal melódico.

As filhas de Iansã são uma coisa insana. Mexem e cegam de tudo que é jeito. Sendo estas ainda filhas de uma mãe de santo sagaz, de Ogun, era tão límpido quanto éter que ia dá merda. Foi talvez a primeira vez, com a racionalidade no lugar, que percebeu que estava numa enrascada. Não só sendo usado, porque há certo prazer nisto, mas tendo a energia (sim, materialista, mas acredita “nessas coisas”) sugada e utilizada na constituição religiosa, pois firmando compromissos de ordem espiritual cuja única motivação parecia ser a presença da filha de Oyá. No fim, descobre que não era o único, havia um namorado oficial, que também não era o único. Oficial num era, ou se virou, porque ele ainda era sargento, mas demonstrava especial interesse por ameaçar os caras que faziam a mulher dele ter orgasmos. Clichê Nelsoniano, mas no fim, o destino meio que tirou de lá a força, pois se dependesse só dele e de Oyá continuaria lá, enfeitiçado. Motivo lógico: amarração de Oyá desfeita pelo Caboclo Pena Branca.

Depois aí sim de um bom tempo na graduação, de muitos shows de metal, de aproveitar um tanto a vida, eis que surge a companheira com quem passou, entre idas e vindas quase 10 anos. Num dos parênteses, entretanto, um amor-amizade. Cuja afinidade profissional, de visão de mundo e de objetivos parece que foi torrencial ao ponto de não cessar até hoje. Não há mais amor, mas um carinho, afeto e amizade raros nestes dias. Mas então, o fim se enquadra como “de boas”? Ora, e se vai perder a chance de um final trágico? Lógico que ela descobriu que apesar de estar lá, ainda visitava a ex de vez em quando, mesmo despois de um tempo sem fazê-lo. Houve uma repreenda moral tão suave que nem parecia um ensinamento de vida, mas só foi assim até entender o real sentido daquelas palavras. Depois doeu pra caramba e “fazer por merecer” foi pouco. Motivo lógico: não sabe brincar, não desce pro play.

O relacionamento voltou e só foi acabar tempos depois, inúmeras nuances, destas que merecem outros textos, apartes importantes no conjunto geral. Já fez e deve fazê-los ainda mais. Spoiler: acabou de maneira abrupta, dolorida e agressiva. Depois dele, entre viagens, cidades, uns e outros, bons afetos, ótimas companhias, mas nenhum plano, nenhum dia acordando a pensar noutra pessoa que não a si, depois da filha. Ótimas pessoas, mas histórias que marcam justamente por não marcar, não que não foram importantes, foram, mas só não assentaram, nem viraram memória porque de certo escolheu não levar a frente algo que não me parecia ter “um projeto”. 
  
Foco pro agora. No calor dos eventos, na apreensão do fim, no fim. Uma tese sendo feita, há de conseguir expressar isso direito. Não sei nem muito bem o que dizer, nem sentir. É a busca pelas conexões, levantamento de dados, análise dos eventos e acontecimentos, processamento das relações causais e consequenciais das escolhas na diacronia, separação das associações por categorias (obrigado Latour), escalonamento das métricas comparativas, constituição dos sentidos e significados e, por fim, compreensão do fenômeno, numa representação histórica, concreta experiencial-sensorial-vivida pelos sujeitos. Grandes merda! Monte de palavra bonita, às vezes sem sentido aparente, que serve de ciência para isso quiçá. O problema é que depressão, ansiedade, insegurança tudo cobra seu preço. Quando se baixa a guarda, quando a situação sai do controle tudo desmorona. Seja para quem diz, ou para quem ouve. O que fazer? É uma questão amarga de responder: pra frente é que se anda, a vida leva e traz (obrigado Sandra de Sá e Alice Caymmi); sentir a gente ainda sente, gostar também, mas se for necessário algum entendimento do que acontece, não sabe mais uma vez, o que será possível. "Eu tô tentando, juro que tô tentando".  Mas e aí, acabou mesmo? Bem, “já tem meio mundo sabendo” que sim, mas ainda tem o outro meio. Motivo:____________________    

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