Que fazer? ou biografia da tragédia perene.
Não lembro de fins “de
boas”. Julga-se tão racional e preza por explicações lógicas, que às vezes imagina que isso só sirva para esconder a emotividade reprimida. Olhar
em retrospecto para os acontecimentos faz crer maluco, teimoso
impertinente, ou ainda, um devoto de perigos perenes, que surgem como
tempestade a minha frente, e, corre para o afogamento.
Todos os eventos, pessoas envolvidas e orixás/entidades são invenções, até que se prove o contrário mnemônico, a concidência com a realidade é isso mesmo, mera coincidência.
Todos os eventos, pessoas envolvidas e orixás/entidades são invenções, até que se prove o contrário mnemônico, a concidência com a realidade é isso mesmo, mera coincidência.
O primeiro relacionamento, ainda cedo
adolescência, foi com uma menina mais velha, três anos fazem muita
diferença. Com 13 estava decidido na aventura mais profunda, ir a praça do
bairro vizinho de bicicleta, desafiando as fronteiras e querelas territoriais,
tudo para tomar soverte e pegar na mão, ou, no máximo, uma vez por mês no cinema. Ela, aos 16, estava interessada em
outras coisas, desde maquiagem, ao intercambio no exterior ao fim do ensino
médio. O potencial máximo estava alí: temáticas de Cavaleiros do Zodíaco, o
incrível campeonato brasileiro de 1999 vencido pelo Corinthians e o próximo
lançamento do Cannibal Corpse. Motivo lógico: mulher x menino do bucho amarelo.
O segundo foi de fato
relacionamento, pois era um acordo entre seres com mesmo objetivo. Foi aquele
de escola, do espírito da época: eram vários meninos e meninas
aproveitando a escola no contra turno, jogando basquete, vandalizando salas
ociosas, pilhando os recém inaugurados shoppings, caotizando tudo pela
frente uns com os outros. Ela ficou com vosso melhor amigo. O cara que tinha,
literalmente, levado nos braços quando arrebentou o joelho. Erguido com
a ajuda dele num lance de escada. Nos primeiros dias, pós joelho arrebentado,
ela ia na casa deixar a tarefa da escola. Mas depois deixou de ir. E quando
voltou às aulas, uns 15 dias depois, tudo já estava diferente. Sofreu pra
caramba pela primeira vez, de verdade, mudou de escola. Motivo lógico: ilusão
monogâmica e chifre de brother.
Noutro, pintada a mulher ideal,
finalmente parece que tinha conseguido-a. Poucos meses depois, num carnaval,
igual a este, numa viagem a este sítio, ela teve a mente contaminada pelo ardiloso
irmão e um amigo dele, cujo objetivo era ficar com ela. Ela expurgou alí
mesmo, por telefone, numa barreira de terra, único local aonde tinha sinal de
telefone. Ao chegar para “conversar”, a única coisa que teve foram os livros de
RPG de volta; ao menos. Motivo: pilantragem de irmão.
Os outros micro-relacionamentos
que se seguiram parece que foram tomados pela altivez da idade adulta batendo à
porta (ao menos a biológica). Parece que
os hormônios tinham sido amestrados, finalmente, pelas sinapses da
racionalidade, com as rédeas nas mãos passou a correr menos aperto neural. Quer
dizer, menos em intensidade. Entendeu que na verdade a gente não gosta nem
deseja as pessoas pelo corpo ou pela aventura somente, mas pela afinidade, pela
aproximação de gostos, lugares e impressões de mundo similar. Isso nem de longe
significa estabilidade. A música, o rock, o metal, eram e ainda são parte
fundante da sociabilidade. Melhores amigos e, obviamente, mulheres tinha
de ser vinculados minimamente a este meio. Eis que pegava um busão, dois
fins de linha. Saído do estágio, que pagava à época 200 reais (meio
salário). Eram duas horas no horário de pico, duas vezes por semana, para
escutar metal, beber coca-cola, cerveja, transar e desbravar o Zona Oeste da
Cidade. Até que um dia, num dos momentos
de pessoa autoritária, a sandália dela quebrou. Na cabeça bastava ir na
Americanas e comprar uma chinela de dedo (a havaiannas, neste tempo não custava
um Espedito Seleiro, ainda). Mas não, a general decidiu que queria um “scarpin”,
coisa que sequer tinha ouvido falar na vida, custava ¼ do salário mensal.
Não foi um pedido, foi imposição. A esta, outras seguiram: onde andar, com quer
ir, o que beber (eu odeio Antártica) e o pior de tudo, o fim da picada, quais
bandas gostar. Motivo lógico: Autoritarismo não combina com metal melódico.
As filhas de Iansã são uma coisa insana.
Mexem e cegam de tudo que é jeito. Sendo estas ainda filhas de uma mãe de
santo sagaz, de Ogun, era tão límpido quanto éter que ia dá merda. Foi talvez a
primeira vez, com a racionalidade no lugar, que percebeu que estava numa
enrascada. Não só sendo usado, porque há certo prazer nisto, mas tendo a
energia (sim, materialista, mas acredita “nessas coisas”) sugada e
utilizada na constituição religiosa, pois firmando compromissos de ordem
espiritual cuja única motivação parecia ser a presença da filha de Oyá. No fim,
descobre que não era o único, havia um namorado oficial, que também não era o
único. Oficial num era, ou se virou, porque ele ainda era sargento, mas
demonstrava especial interesse por ameaçar os caras que faziam a mulher dele
ter orgasmos. Clichê Nelsoniano, mas no fim, o destino meio que tirou de
lá a força, pois se dependesse só dele e de Oyá continuaria lá, enfeitiçado.
Motivo lógico: amarração de Oyá desfeita
pelo Caboclo Pena Branca.
Depois aí sim de um bom tempo na graduação, de muitos shows de metal, de aproveitar um tanto a
vida, eis que surge a companheira com quem passou, entre idas e vindas quase 10
anos. Num dos parênteses, entretanto, um amor-amizade. Cuja afinidade
profissional, de visão de mundo e de objetivos parece que foi torrencial ao
ponto de não cessar até hoje. Não há mais amor, mas um carinho, afeto e amizade
raros nestes dias. Mas então, o fim se enquadra como “de boas”? Ora, e se vai perder a chance de um final trágico? Lógico que ela descobriu que apesar
de estar lá, ainda visitava a ex de vez em quando, mesmo despois de um
tempo sem fazê-lo. Houve uma repreenda moral tão suave que nem parecia um
ensinamento de vida, mas só foi assim até entender o real sentido daquelas
palavras. Depois doeu pra caramba e “fazer por merecer” foi pouco.
Motivo lógico: não sabe brincar, não desce pro play.
O relacionamento voltou e só foi acabar tempos
depois, inúmeras nuances, destas que merecem outros textos, apartes
importantes no conjunto geral. Já fez e deve fazê-los ainda mais. Spoiler:
acabou de maneira abrupta, dolorida e agressiva. Depois dele, entre viagens, cidades,
uns e outros, bons afetos, ótimas companhias, mas nenhum plano, nenhum dia
acordando a pensar noutra pessoa que não a si, depois da filha. Ótimas pessoas,
mas histórias que marcam justamente por não marcar, não que não foram
importantes, foram, mas só não assentaram, nem viraram memória porque de certo escolheu não levar a frente algo que não me parecia ter “um projeto”.
Foco pro agora. No calor dos
eventos, na apreensão do fim, no fim. Uma tese sendo feita, há de conseguir
expressar isso direito. Não sei nem muito bem o que dizer, nem sentir. É a
busca pelas conexões, levantamento de dados, análise dos eventos e acontecimentos,
processamento das relações causais e consequenciais das escolhas na diacronia,
separação das associações por categorias (obrigado Latour), escalonamento das
métricas comparativas, constituição dos sentidos e significados e, por fim,
compreensão do fenômeno, numa representação histórica, concreta experiencial-sensorial-vivida pelos sujeitos. Grandes merda! Monte de palavra bonita, às vezes sem
sentido aparente, que serve de ciência para isso quiçá. O problema é que
depressão, ansiedade, insegurança tudo cobra seu preço.
Quando se baixa a guarda, quando a situação sai do controle tudo
desmorona. Seja para quem diz, ou para quem ouve. O que fazer? É uma questão
amarga de responder: pra frente é que se anda, a vida leva e traz (obrigado
Sandra de Sá e Alice Caymmi); sentir a gente ainda sente, gostar também, mas se
for necessário algum entendimento do que acontece, não sabe mais uma vez, o que
será possível. "Eu tô tentando, juro que tô tentando". Mas e aí, acabou mesmo? Bem, “já tem meio mundo sabendo” que sim,
mas ainda tem o outro meio. Motivo:____________________

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